qualquer linda história não termina bem pra todos os lados. mas a vida dá voltas o suficiente pra mostrar qual lado é o certo e qual é o errado.
há uns dias ou meses atrás ela podia estar num quarto onde fazia muito calor e esse mesmo calor lhe impedisse de ter pensamentos inteligentes. ah vá, mas o calor era o menor dos problemas. o que incomoda não é falta de grana ou de um ombro amigo naquele dia em que até a TPM tem medo da gente. o que dói é a saudade intrusa que bate na porta só por educação porque no fundo ela já está no sofá sem pedir licença.
saudade é a visita chata que não diz que horas sai.
a vontade mesmo era de correr pro telefone e discar como número anônimo, escutar a voz do outro lado e passar a noite inteira rolando na cama e imaginando como seria tal reação naquele outro lado. a saudade começa cor azul bebê, com gostinho de 'ela volta, ela sempre volta' e termina com sensação de corte de papel, acumulando lágrimas que brotam até em festa de criança ou em pleno funk volume máximo. todos dançam, menos ela.
mas a saudade tem cura azul céu
até que um dia ela sentira que se nem tudo que reluz é ouro, o pouco de brilho que sobrara não podia ser apenas biju. ninguém paga caro sem ao menos olhar a embalagem. ninguém sofre em vão.
todas aquelas lágrimas derramadas por fora enquanto sozinha no quarto (ou por dentro, em uma mesa lotada de gente) haveriam de parar mais cedo ou mais tarde. é que o mesmo céu que ilumina os passos de quem não olha pro lado é o mesmo que faz chover do nada, como apenas uma nuvem cinzenta em cima da cabeça.
ela sabia que quando se dá amor de verdade e se recebe bofetadas, essa mesma ardência dos tapas vira poesia quando a outra pessoa se toca de cada burrada, de cada palavra mal pensada, de cada infantilidade dessas que o tempo pode até fazer esquecer num momento ou outro, mas jamais apaga.
é aí que o se descobre que o coração é de ouro
e mesmo sem muito ânimo pra rotina do dia a dia, o Destino trabalha pelas nossas costas e nos mostra lá na frente um espelho que diz 'Eu mudei pra melhor'. ela cresceu anos em meses. e aquela dor que um dia lhe cegara os olhos ao ponto de não saber escolher nem a própria direção, a direcionou para a certeza de que a mesma pessoa que lhe rejeitara um dia, agora lhe beijava os pés implicitamente. os que buscam diversão e fantasia são mais carentes do que os que buscam compromisso, ela sabe disso, e talvez por conta disso tenha demorado tanto a perceber que o tanto que achou que amara alguém, era na verdade o mínimo do que outra pessoa pode amá-la agora. coração de ouro, sem vaidades ou ambições.
assim como o branco reflete todas as cores,
ela aprendeu a lição de cada momento claramente.
todo vermelho de tesão, paixão, lágrimas, intuições escrotamente certas e noites mal dormidas por conta de ciúme e ímpeto, estava a se apagar daquele olhar. ele dera lugar ao verde da paciência, do aprendizado lento e doloroso como letras de Renato Russo, doces lembranças que agoram traziam mais paz por terem sido vividas do que autopiedade por terem ficado no passado. lhe trouxe o vigor do lilás, o charme do rosa, e agora, com maestria, aquele pequeno arco íris no mesmo olhar, antes tão ingênuo porém intenso, a sabedoria de que cada dor nos proporciona uma riqueza diferente.
ela está acima da dor..
as cores leves que lhe enfeitam o rosto sem precisar de make nenhum, são as mesmas que lhe dão o ar de força, segurança e intensidade que somente um nativo de libra pode aparentar, apesar do fundo romântico e sensível que também pode destruir, a sombra maior que fica é que a luz dela, essa sim, é indestrutível.
