love kills?

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domingo, 11 de setembro de 2011

anís


o tom perolado não ameniza o encardido do tempo
e o perfume barato não disfarça a naftalina vencida
da janela empoeirada ela contempla sua rua
unhas feitas, penteado novo, e ninguém no portão para lhe esperar
se imaginando numa volta ao tempo que só existe em delírios
talvez seja efeito dos comprimidos ou maluquice natural
e lá se vem um giro de dez anos atrás
um encontro imprevisível e bizarro como o acaso
um funeral, um esbarrão e uma troca de olhar
um convite para um café com sabor de terceiras intenções
e o copo permanece na mesa
autodidata, aprendeu a não evaporar seu conteúdo
o vestido ainda é o mesmo
retalhos cor de licor de anis
luta pra entrar naquele corpo que já não colabora mais
e cada dia é uma luta contra a realidade
ela acorda e desmaia com a figura do ilustre desconhecido
tem gente que nasce pra sofrer
e se orgulha de estragar tudo na melhor parte
nenhum final tem a classe do começo
alguém sempre sai machucado
certos traumas não se apagam com porres
e o sabor do licor se perdeu no tempo
ela já não sai do quarto, sanatório improvisado
só mais uma dose, por favor
pra incentivar a dor
e estimular o que se foi
a voltar pra onde tudo começou