e ela lutava contra uma vontade sobre humana de acender dois cigarros de uma só vez. e ela olhava em volta e percebia que não estava na sacada coisa nenhuma, tampouco num telhado ou no alto de um prédio em que um grupo de imbecis lá embaixo gritaria 'Pula! Pula!'. ela permanecia mesmo era na porta de casa, percebendo que discussões de parentes invadiam de leve o seu fone de ouvido. era a mesma coisa de estar sozinha num apartamento quente e minúsculo, mas quer saber? tanto faz, afinal tudo em volta vira jaula quando procuramos uma liberdade que não existe. as horas pareciam não passar. vez ou outra um gato ou cachorro circulava pela rua, ela chamava estalando os dedos e eles nunca iam até ela. naquela tarde estranha o celular não tocou, e também, se tocasse seria engano. e ela que um dia foi uma espécie de modelo de transgressão no mínimo divertida, se transformou numa imagem ridícula e romântica que dorme no sofá da sala assistindo filme cult. e sonha acordada. e ora por pessoas que nem acreditam em oração. e ela nunca mais tomou comprimidos que servem pra te fazer tirar a roupa ao invés de dormir. nunca mais saiu furando pneus ou protagonizando bafons desses em que os amigos não esquecem jamais. então ela abriu a geladeira na esperança de breja mas só tinha fanta uva. e quando ia passar shampoo no banho, a energia acabou 'tudo bem, água gelada refresca as ideias'. único refresco foi o resfriado instantâneo. e ela voltou pra calçada de casa e viu que naquela noite não tinha estrela, e que os parentes continuavam brigando lá dentro, e que o dia passou sem o cuidado gostoso de ter sido observado,
fotografado com os olhos.
é por que a garota sabe mas finge muito bem que não, que quando nos perdemos em devaneios preocupados com as responsabilidades do destino, e não nossas, perdemos chances tão bonitas como passar um dia ao ar livre escutando vozes e vendo crianças brincando,
mas olhamos o mundo a nossa frente e não enxergamos nada.
bem que se poderia pensar que essa garota seja eu mesma, mas o fato é que Não. ela é muito maior do que eu! ela é o band aid que se arranca de uma vez. meio ferida, meio alívio.
menos meio amor por tudo. e tudo menos amor ao meio!
